domingo, 10 de dezembro de 2017

O Poder da Escolha Consciente - Eco Trip / Take 13

Dia 12 - 24 de Agosto


Tanto para Apreciar...


Apesar do sino da igreja passámos uma noite descansada e de manhã encontramos o Luigi na cozinha a preparar o nosso pequeno-almoço com muito carinho. Ontem à noite antes de se deitar deixou preparado o leite de amêndoa, e agora vamos degustá-lo, junto com uma pasta de amêndoa feita por ele e simplesmente deliciosa. Torradas, manteiga indiana ghee, melão, mel, chá - um super repasto matinal.

A minha escolha para hoje é viver em plena Compaixão, saboreando a Serenidade de Ser em todos os instantes do meu dia e é com esta escolha que começa a nossa visita pelos caminhos históricos do Norte de Itália.

O Luigi leva-nos a uma aldeia próxima de Cremezzano chamada Sandino onde nos deparamos com um castelo de tijolo saído dos contos de fadas, com um fosso à volta onde poderiam estar crocodilos de boca aberta e que tem uma daquelas pontes levadiças por onde decerto muitos cavaleiros terão passado em tempos idos.





A nossa principal visita do dia é no entanto a Milão que me repousa na memória como um lugar onde detestava ir em criança. Quando viva em Gorgonzola, com os meus 6/7 anos, sempre que a minha mãe me dizia que íamos a Milão ficava chateada. Era um lugar escuro e poluído com demasiado movimento e barulho e que eu não conseguia compreender.

Agora, reconheço como aos meus olhos de criança a monumentalidade gigantesca de Milão poderia parecer-me assustadora, de facto, pois é uma cidade grandiosa que aos olhos de um adulto é magnífica e portentosa mas que uma criança criada no campo e em cidades pequenas não consegue abarcar no seu mundo. Por outro lado tive vivências passadas, memórias de outras vidas não muito agradáveis aqui.

O meu desafio presente é precisamente manter um olhar Compassivo, sem as sombras do passado e inteiramente disponível para a serena novidade do agora.

E assim é. Milão mostra-se bonita, imensa, ainda poluída mas estranhamente calma nesta 5ª feira quarta-feira de agosto, com trânsito tímido e calor intenso.

Encontramos um lugar a cerca de 2km do centro mas não há parquímetros. Percebemos que é um lugar onde se estaciona com dístico residencial e que provavelmente o pagamento é feito em alguma repartição pública. Sentimo-nos confiantes e arriscamos deixar o carro aqui mesmo. Vai tudo correr bem.

Caminhamos, caminhamos, caminhamos pelas ruas que normalmente não se visitam. É a vantagem de estacionarmos fora dos centros históricos.

Quando chegamos ao largo central, ao grandioso Duomo, o movimento de carros e pessoas intensifica-se. Ainda ponderamos se entramos ou não. O Luigi quer oferecer-nos o bilhete mas acabamos por decidir não entrar porque por um lado a fila é grande e por outro o monumento também, o que nos requereria umas boas horas que escolhemos usar de outra forma.




Passeamos pelas Galerias Vittorio Emanuele, graciosas no seu esplendor dourado. Vemos turista após turista a colocar o seu calcanhar no testículo do touro e a rodar uma volta inteira – é suposto ser uma prática de boa sorte! E há tanta gente a acreditar nisso ou apenas a seguir o exemplo por curiosidade que há um buraco no chão de tanto pé a rodar todos os minutos de cada dia! Ficamos ali um pouco a ver o “desfile” e a deliciarmo-nos com a sedução impulsiva do ser humano em seguir os mesmos passos já antes trilhados.




Depois seguimos pelas ruas de Milão até ao Castelo Sforzesco que nos brinda com um belo jardim onde podemos descansar um pouco que a caminhada já vai longa. Quando chegamos ao jardim temos o privilégio de ouvir um guitarrista que por ali decidiu parar para vender os seus CDs e alegrar as árvores.


Hum… árvores de sombra frondosa e fresca, com cadeiras espalhadas pelo relvado, mesmo a jeito para uma boa conversa sobre amor e relacionamentos – um dos meus temas prediletos.

Quando um relacionamento termina há sempre a tendência para se dizer que não funcionou ou que algo correu mal o que, tendo em conta que a mudança é a certeza maior que existe na vida, é no meu entender um preconceito limitante. 

Todos os relacionamentos servem um propósito na vida de quem os tem e todos os seres humanos evoluem ao seu próprio ritmo, pelo que em relacionamentos muito longos é muito natural que duas pessoas evoluam em sentidos distintos e criem interesses distintos. Se esses caminhos distintos forem conciliáveis, os relacionamentos podem perdurar e ambas as pessoas podem coexistir. Se forem inconciliáveis a vida convida-nos a largar a nossa zona de conforto no relacionamento e a seguir um novo trilho – há alguma coisa de errado nisto? A meu ver não. Nada corre mal, apenas muda e tudo contribui para sermos quem somos em cada momento.

Porque é que se considera que apenas os relacionamentos que duram eventualmente toda a vida é que correm bem? Muitos desses relacionamentos estão longe de ser um exemplo de amor e harmonia e são na maioria das vezes apenas uma farsa confortável e aceitável socialmente. Por outro lado, os relacionamentos que duram uma vida em harmonia são a exceção e não a regra pelo que nem uma coisa nem outra é o que está certo ou o que está errado, são apenas formas diversas de trilhar o amor nesta vida.

Permitamo-nos a liberdade de descobrir o amor para além da forma – ou seja, sempre que estejamos numa encruzilhada entre ficar num relacionamento íntimo com alguém ou apartarmo-nos dessa forma de relacionar, saibamos que o amor entre nós persiste se soubermos manter o respeito mútuo e aceitar que a amizade é também um forma de amor puro e pleno. Saibamos aceitar o outro e aceitar-nos a nós mesmos em cada fase evolutiva e façamos escolhas claras e conscientes mantendo sempre firme o nosso propósito maior que é sempre e invariavelmente: SER.

O giro é que toda esta conversa surja numa altura em que estou a finalizar o meu livro SER!... Amor que quero ver publicado até final de setembro em inglês e português, finalmente após 5 anos de incubação.


Bem vamos mas é seguir que a conversa já vai longa e a hora do almoço declara-se nos nossos estômagos como um despertador que brinca com a nossa imaginação gastronómica.

Decidimos procurar um restaurante para comer uma boa pizza italiana, mas longe do centro para ser mais barato e sossegado. Eis que tenho a felicidade de poder recordar uma das coisas que mais amava na Itália: a pizza margherita! A mais simples de todas e desta vez com folhas de manjericão. Não podia passar por Itália sem revisitar esta experiência simples mas significativa nos recantos das minhas memórias de infância.

Quando chegamos ao carro está tudo bem. Claro. O Luigi ainda ía com alguma dúvida mas nós já vamos com uns bons dias de experiências de confiança na voz segura do nosso coração ao longo do caminho pelo que sabemos que quando sentimos que tudo está bem assim é.

Depois de Milão ainda vamos até Cremona onde existe a Torre em tijolo mais alta da Europa. Mais um lindo monumento – uma igreja – que temos oportunidade de ver por dentro e por fora. É uma cidade artística e histórica quase como Tomar mas em ponto grande J



Abrimos espaço para outro momento degustativo com o gelado do fim da tarde, uma especialidade italiana também a não perder e neste caso de fabrico artesanal e com sabores bem diferentes do habitual.

Encontramos mais uma vez uma bela árvore de raízes gigantes debaixo da qual apetece ficar mas que afinal está pejada de mosquitos! Aqueles de que te falei já e que são uma verdadeira praga nesta zona da Itália. Procuro um banco de jardim longe dos mosquitos e ali fico quieta e feliz enquanto o Pedro e o Luigi conversam debaixo da árvore, sem se sentirem incomodados pelos mosquitos.

No caminho para casa (Cremezzano) ainda passamos em Pardenelle sob o laranja do pôr-do-sol para ver por fora o último castelo do dia – de tijolo, como é apanágio dos monumentos desta zona.

Foi um dia intenso e cheio, bonito e sábio pelo que nos sentimos imensamente gratos e prontos para uma boa noite de descanso.

O Luigi convidou-nos para uma festa com uns amigos amanhã mas decidimos seguir caminho rumo ao Lago de Como para podermos ir com mais calma e parar noutros lugares.

Como se não bastasse tudo o que já recebemos hoje, o Luigi ainda nos dá umas abóboras bio diretamente da sua horta para podermos comer em Portugal e lembrarmo-nos destes momentos bem passados.


Obrigada Luigi.

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